Página do Aluno
Entrevistas com responsável pelo processo seletivo da FUVEST
NÃO HÁ PERSPECTIVA DE SUBSTITUIR PRIMEIRA FASE DA FUVEST POR NOVO ENEM, DIZ PRÓ-REITORA DA USP
A Fuvest, que seleciona os futuros alunos da USP (Universidade
de São Paulo), anunciou mudanças no seu vestibular em
meados de abril, semanas depois da divulgação do novo
Enem pelo MEC (Ministério da Educação). No entanto,
nos próximos dois ou três anos, a USP deve manter a utilização
do Enem na composição da nota e não como substituto
para a primeira fase. "Não há, em curto prazo, perspectiva
de o [novo] Enem substituir a primeira fase da Fuvest" - é o
que afirma a pró-reitora de graduação, Selma Garrido
Pimenta, que está no quarto ano de seu mandato.
De fala mansa e sempre firme, a professora da Faculdade de Educação
esmiuçou como serão as alterações na prova e explicou por que a Fuvest
resolveu mudar. E ela esclarece: "O vestibular não ficou mais fácil.
O nível de dificuldade é o mesmo. Ou seja, é alto”. Por enquanto, a
evolução do exame está voltada para definir outro perfil de aluno para
a USP - alguém menos especializado. Mas a pró-reitora já sinaliza uma
modificação, daqui a dois ou três anos, nos programas e conteúdos.
UOL Educação: Há alguma possibilidade de
o novo Enem ser usado como primeira fase da Fuvest?
Selma Garrido Pimenta: Não há, em curto prazo,
perspectiva de o Enem substituir a primeira fase do exame da Fuvest.
Quero deixar bem claro isso: que a USP não usará nem neste
ano, nem no próximo. A USP estará observando o movimento
do novo Enem e avaliando. No Estado de São Paulo, as três
universidades estão cogitando - não para este ano nem
para o próximo - unificar eventualmente a primeira fase da USP,
Unesp e Unicamp.
UOL Educação: Quanto tempo deve durar essa observação?
Cinco? Dez anos?
Selma Garrido Pimenta: É uma pergunta para a qual eu não
tenho resposta. Nunca tivemos um processo assim. O que dá para
dizer é que estamos na escuta, estamos observando esse movimento.
Não é de um ou dois anos - é mais que isso certamente.
UOL Educação: De alguma forma, a nova prova da
Fuvest [com mudanças para 2010] vai se aproximar do "velho" Enem?
Selma Garrido Pimenta: Não dá para dizer que estamos
nos aproximando do "velho" Enem. Estamos reconfigurando o vestibular
com base em alguns princípios. Acho importante dizer que o Enem
continuará sendo valorizado na prova da Fuvest como vinha sendo
feito. Conforme o desempenho do aluno, ele [o exame] vai contar como
20% da primeira fase. Além disso, o Enem, no Inclusp [programa
de inclusão da USP] continuará sendo utilizado.
UOL Educação: As perguntas dessa nova Fuvest serão
mais analíticas? Mais interdisciplinares? Cobrarão mais
conteúdo?
Selma Garrido Pimenta: É um erro fazer essa separação
no ensino de que uma coisa é a informação e que
outra é o raciocínio. O recado para os estudantes é:
continuem estudando bastante o conjunto das disciplinas. Para as escolas:
continuem se esforçando para cada vez mais desenvolver seus estudantes
na direção de uma formação humana. O que
a USP valoriza cada vez mais é que este vestibular sinalize para
o ensino médio fazer o que está nos parâmetros curriculares
nacionais, que é trabalhar o conhecimento na formação
da capacidade de pensar, de raciocinar. O que é raciocinar? É
ligar conceitos que aparentemente estão desconexos, é
entender a lógica que estrutura um determinado conceito, estabelecer
relações entre conceitos e conhecimentos. E conhecimento
vinculado às demandas que estão postas na sociedade.
UOL Educação: Que mudanças na prova a senhora
destacariam?
Selma Garrido Pimenta: A primeira fase [com 90 testes de múltipla
escolha] estava muito valorizada no processo como um todo. Ela tinha
um peso de 50%. Agora, ela terá peso zero na nota final. Ela
[ainda] será uma avaliação geral, sem nenhuma mudança
na prova em si; ela terá as 90 questões e o mesmo tempo
de duração. Ela será um grande filtro que classifica
a partir de um nível de conhecimento bastante geral das disciplinas
do ensino médio. Na segunda fase, é que nós temos
a mudança significativa. Primeiro: uma redução
no número de dias para a realização das provas.
Com isso, buscamos diminuir o estresse que o vestibular USP provoca.
Passamos a ter tr&ecird;s dias de provas - e não mais cinco como
era antes. Aqui temos a novidade maior: o candidato, que foi selecionado
na primeira fase com uma visão geral dos conteúdos, tem
de demonstrar, agora, um nível de conhecimento maior para o conjunto
das disciplinas do ensino médio.
UOL Educação: Como será esta nova segunda
fase da Fuvest?
Selma Garrido Pimenta: O primeiro dia vai ter uma prova de redação
e língua portuguesa. No segundo dia de exame, serão 20
questões abordando as disciplinas - biologia, física,
química, matemática, história, geografia e inglês
- o que significa que cada questão poderá abranger conhecimentos
de mais de uma dessas disciplinas. E temos o terceiro dia: aí
sim com disciplinas específicas conforme o curso a que o candidato
concorre. Haverá uma ênfase em exatas ou humanas, por exemplo,
dependendo da carreira escolhida.
UOL Educação: A escolha das disciplinas específicas
é feita pelas unidades ou é pela reitoria?
Selma Garrido Pimenta: O número de disciplinas é
escolhido pela pró-reitoria - são duas ou três.
As disciplinas a serem avaliadas são escolhidas pelas unidades,
de acordo com o perfil desse estudante que ela está buscando.
Importante também é que todas as provas terão o
mesmo peso. Diferente do que acontecia anteriormente, em que o peso
era, em geral, maior nas questões específicas da especialização.
Um acréscimo é sobre as disciplinas de habilidades específicas
- em cursos como música, artes cênicas, artes plásticas
e arquitetura. Essas provas permanecem com calendário semelhante,
mas pesos diferentes para o resultado final. O peso era muito alto,
quase que definindo o candidato antes de ele fazer até a primeira
fase. Este [novo] vestibular conforma um perfil mais homogêneo
[em termos de formação geral]. Quero destacar que quando
falamos desta formação geral, nós não estamos
reduzindo a seletividade. Isso é importante ficar claro. Um aprofundamento
nas gerais vai continuar sendo necessário.
UOL Educação: Então nós não
vamos conseguir dar a notícia que o vestibulando gostaria de
receber: que o vestibular ficou mais fácil?
Selma Garrido Pimenta: Exatamente. O vestibular não ficou
mais fácil. O nível de dificuldade É o mesmo. Ou
seja, é alto. Até por esses números, a Fuvest tem
de selecionar 10.500 alunos dentre um contingente de 120 mil.
UOL Educação: Professora, por que a Fuvest mudou?
Ela está em busca de uma avaliação melhor ou de
um perfil de aluno diferente?
Selma Garrido Pimenta: Nesta mudan¸a em especial, é
o perfil que está sendo alterado. Por quê?
A própria universidade foi percebendo que os programas e as próprias
provas apontavam muito fortemente para uma especialização
precoce. Como se o estudante que entrasse na USP já devesse ter um nível
de especialização. A especialização vai
acontecendo na formação justamente durante o curso de
graduação.
UOL Educação: Sendo a Fuvest tão importante,
como é ter nas mãos este vestibular?
Selma Garrido Pimenta: É uma grande responsabilidade.
Todo o processo é feito com muito cuidado, muito estudo e muita
cautela. Essas mudanças que serão implantadas no próximo
vestibular, por exemplo, estão sendo estudadas desde antes de
eu chegar aqui [há quatro anos].
FONTE: UOL – 06/05/2009